Por que a coleta seletiva ainda é um desafio no Brasil? - Merchan Plásticos
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Por que a coleta seletiva ainda é um desafio no Brasil?

Por que a coleta seletiva ainda é um desafio no Brasil?

A humanidade nunca foi tão consciente e preocupada com o meio ambiente como nos dias de hoje. Na última década, o tema ganhou destaque na economia e na política do mundo todo, além de ser amplamente defendido nas mídias por diversas celebridades. Existe um desejo genuíno e intrínseco às pessoas de sentirem que contribuem com o planeta, de tornarem seus estilos de vida mais sustentáveis e salvarem o meio ambiente para as futuras gerações. É indiscutível que não há mais dúvidas quanto a importância da reciclagem e da sustentabilidade para o planeta.

No entanto, no Brasil, a reciclagem ainda é um mercado muito desamparado. Segundo dados da Abrelpe (Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais) o Brasil gerou, só em 2018, 79 milhões de toneladas de lixo – o que representa o aumento de 1% com relação ao ano anterior. Estima-se que apenas 3% deste lixo foi devidamente reciclado, sendo que o potencial seria de, no mínimo, 30%, comparando com as taxas de outros países mais desenvolvidos.

Os números são alarmantes. O Brasil configura-se entre os quatro maiores produtores de lixo plástico no mundo todo, de acordo com a WWF (World Wildlife Fund). São em média 11,3 toneladas por ano, e destas, apenas 1,28% são recicladas. O número encontra-se muito abaixo da média mundial, que é de 9%.

A coleta seletiva como solução

Grande parte do problema está na coleta seletiva deficitária que encontramos aqui. Estima-se que apenas metade dos municípios fazem algum tipo de coleta seletiva (sem padrão registrado ou nenhum tipo de regulamentação), e a maioria deles encontra-se apenas nas regiões Sul e Sudeste do país. Na região Centro Oeste, por exemplo, menos de metade das cidades realiza a coleta seletiva. Já no Norte, este número cai drasticamente.

Segundo a Política Nacional de Resíduos Sólidos, este tipo de coleta é responsabilidade de cada município separadamente. Dessa forma, fica a critério do próprio município quais as metas e regras deste serviço, que deve constar nos planos de desenvolvimento da cidade. Se por um lado é uma forma de respeitar as individualidades de cada município, por outro, a discrepância entre eles fica muito acentuada.

Neste contexto, podemos questionar aonde entra o verdadeiro engajamento dos brasileiros com essa causa. Como cada um de nós, como cidadãos, poderia fazer a sua parte? Queremos muito contribuir, mas ainda temos um longo caminho pela frente, e há muitos motivos que contribuem para esse cenário:

  • A falta de informação da população referente aos tipos de recicláveis;
  • Os altos impostos cobrados pela matéria prima reciclada;
  • Falta de incentivo do governo;
  • Falta de regulamentação geral no tema;
  • Falta de pessoal qualificado;
  • Falta de estrutura.

Como podemos ver, não basta apenas implantar as lixeiras diferenciadas de coleta, como diversos municípios do país vêm fazendo. Em entrevista à Revista Galileu, Ana Maria Luz, presidente do Instituto GEA – Instituto de Ética e Meio Ambiente, afirma que “Não mudou muito a visão de que basta ter lixeiras e o sistema de coleta já está resolvido. Não está”. Ela ratifica que falta uma maior educação sobre o tema entre os brasileiros. “Qualquer programa de coleta seletiva depende que, primeiro, as pessoas pensem antes de jogar o resíduo no lixo para que ele seja separado desde a hora que cai na lixeira e, segundo, que ele chegue à reciclagem.”

Além da falta de recursos nos mais diversos municípios, outro fator que contribui para a reciclagem ainda estar engatinhando no Brasil são os altos impostos que o país impõe. No sistema tributário brasileiro, a matéria-prima reciclada é mais cara do que a virgem, o que encarece o produto final. Essa falta de incentivos e vantagens econômicas causa um verdadeiro desinteresse industrial no tema.

Algumas embalagens possuem uma logística de reaproveitamento já consagrada – como produtos de aço, papelão e alumínio. No entanto, outras são descartadas pela total falta de retorno econômico, como o plástico.

Sobra boa vontade, falta informação

Outro ponto que agrava ainda mais o cenário é a falta de informação que existe em torno do assunto. A maioria dos brasileiros não conhece nada sobre o funcionamento da reciclagem, seus processos, onde terminam e onde começam. Uma rápida pesquisa no Ibope (Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística) feita em 2018 comprovou que 66% dos brasileiros sabem muito pouco ou nada sobre a coleta seletiva, e que há uma média de pelo menos 39% que não se interessam em separar o lixo em casa.

Mas para comprovar este fato não precisamos ir tão longe. Imagine que você está num parque. O dia está quente, o sol escaldante, e você decide comprar um picolé. Depois de saboreá-lo, você se aproxima dos lixos recicláveis – que a prefeitura disponibilizou ali há mais de dez anos, justamente quando a onda de sustentabilidade e consciência ambiental começou a crescer no Brasil – e você quer fazer a sua parte.

Então, você se depara com as opções: Plástico, Metal, Vidro, Papel e orgânico.  Onde você coloca o palito? A dúvida aparece justamente quando o produto a ser descartado não se enquadra com clareza em nenhum dos principais grupos. E a embalagem do sorvete, do que é feita? De papel, como o próprio nome diz, ou de plástico – afinal, ele tem sua estrutura brilhante e aparentemente plastificada? Mas se ele está com restos de sorvete, será que não deveria ir para o lixo orgânico?

Pouca gente sabe, por exemplo, que todos os materiais recicláveis precisam ser devidamente higienizados antes de serem descartados, desde o pote de iogurte até a garrafa de suco. A caixa de pizza, por exemplo, só pode ir se estiver sem nenhum resto de comida grudado. Também de nada serve acreditar que apenas uma batalha contra canudinhos de plástico ou a favor das ecobags vá resolver o problema, afinal, nenhum item isolado é o problema.

O problema é o sistema como um todo, e nele, todo mundo tem a sua parcela de responsabilidade: a indústria, o governo, e cada indivíduo por si. É triste constatar que, dez anos após a legislação sobre metas para descarte correto ser aprovada, muito pouca coisa realmente mudou na prática.

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